sábado, 3 de fevereiro de 2018

uma fotografia


sexta-feira, 2 de fevereiro de 2018

um poema de Nelly Sachs


Números


Quando as vossas formas se afundaram em cinza
nos mares da noite
onde a eternidade pra as marés
lança vida e morte —

ergueram-se números —
(marcados a fogo outrora nos braços
pra que ninguém fugisse ao martírio)
Nelly Sachs. © Central Press/
Hulton Archive/Getty Images

ergueram-se meteoros de números,
gritados pra os espaços
em que anos-luz como setas se estendem
e os planetas
nascem das matérias
mágicas da dor —

números —
com as suas raízes
extraídas de cérebros assassinos
e já calculados
na órbita de veias azuis
da revolução celeste.


Nelly Sachs (1967), Poemas de Nelly Sachs. Lisboa: Portugália Editora, p. 64.
Tradução de Paulo Quintela. 

[Sternverdunkelung (Escurecer de Estrelas), 1949]

um poema de Wislawa Szymborska


Poça de Água


Recordo bem este medo da infância.
Evitava as poças,
sobretudo as novas, após a chuva.
Afinal, uma delas poderia não ter fundo,
ainda que parecesse igual às outras.

Ponho o pé e, de súbito, afundar-me-ei,
voando para baixo,
cada vez mais baixo,
rumo às nuvens reflectidas
ou talvez mais além.

Depois a poça secar-se-á,
fechar-se-á por cima de mim,
e eu para sempre trancada – onde –
ficarei com um grito não repercutido à superfície.

Só mais tarde compreendi que
nem todas as más aventuras
cabem nas regras do mundo
e mesmo que o quisessem
não poderiam acontecer.


Wisława Szymborska (2006), Instante. Relógio D'Água.
Tradução de Elżbieta Milewska e Sérgio Neves.

quinta-feira, 1 de fevereiro de 2018

lira dourada

quarta-feira, 1 de novembro de 2017

fotografia de outono


domingo, 17 de janeiro de 2016

da cadeira




No compasso ouve-se agora, por vezes baixinho, o Beethoven de Glenn Gould  – o passeio andou pelo Concerto para Piano n.º 4, a que se seguiram as três últimas sonatas para piano. Pelo meio, como que num intervalo em que se bebe qualquer coisa e se conversa sobre o que ainda se vai ouvir, o bar imaginário passava a transcrição para piano da Quinta Sinfonia.


Mas a semana que se segue pede-me a música de Bach tocada daquela cadeira baixa construída pelo pai de Gould. Talvez se faça ouvir aqui toda a música de Bach disponível em gravações, remasterizada em 2015, pelo menos em streaming. O programa ainda não tem ordem definida, mas sabe-se que tudo terá início com a Suite Inglesa n.º 6.

segunda-feira, 4 de janeiro de 2016

A Próxima Aldeia


A PRÓXIMA ALDEIA


O meu avô costumava dizer: «A vida é espantosamente curta. Neste momento, comprime-se tanto na minha lembrança que, por exemplo, mal consigo perceber como pode um jovem decidir dirigir-se para a próxima aldeia sem temer que — abstraindo já dos acidentes infelizes — o tempo duma vida normal e sem azares não baste nem de longe para tal viagem.»

Franz Kafka
in: Ein Landarzt (1920)

Trad. Manuel Resende

domingo, 3 de janeiro de 2016

listas de 2015

Falhei o mês pródigo para apresentação das listas dos melhores do ano, e é agora, tempo das listas do que há de vir, que penso nisto. Uma lista bem curta, sem livros, sem filmes, só três discos. Foram, de todos os editados em 2015, os que mais tempo me giraram em volta das antenas. 


Mahan Esfahani

Time Present and Time Past
Deutsche Grammophon (Archiv)

O cravista Mahan Esfahani oferece, neste disco, um programa tão imprevisível quanto surpreendente. O título, verso que dá início aos Quatro Quartetos de T.S. Eliot, refere-se à época contemporânea e ao Barroco. Por um lado, temos alguns dos compositores que pegaram no tema "La Folia" – descobri só uns anos depois de ver o Tous Le Matins du Monde que Marin Marais era mais um dos barrocos que explorou o tema. Deste lado há A. Scarlatti, C.P.E. Bach e Geminiani. Pelo meio, há  o transe de Piano Phase for Two Pianos, de Cage, onde Esfahani toca as duas partes em overdub, e o Concerto para Cravo de Górecki, que não conhecia e que passou a fascinar-me. A coroar o disco há uma grande interpretação do primeiro Concerto para Cravo em Ré menor, de Bach.



The Tallis Scholars

Tintinnabuli
Gimmel


Arvo Pärt vai sendo presença constante no compasso. No ano em que fez 80 anos, de todos os discos exclusivamente dedicados à sua obra, este pareceu-me o melhor. Os Tallis Scholars, que são especialistas em repertório renascentista, oferecem-nos aqui uma lição de consistência e de unidade com interpretações, todas elas, de excelência. O alinhamento não traz nada de novo – para cada peça há já uma série de gravações disponíveis – mas tudo soa a refrescante, mesmo sem ser  assim tão diferente das melhores gravações da obra de Pärt (quase sempre por Tõnu Kaljuste ou Paul Hillier).



Mette Henriette
Mette Henriette
ECM 

O álbum (duplo) de estreia desta saxofonista norueguesa teve, e continua a ter, uma presença constante por estes lados desde a data de lançamento. O primeiro disco tem música para trio (com violoncelo e piano) e o segundo para uma sinfonietta com treze instrumentistas. O primeiro é mais pausado, mais intimista; o segundo é mais experimental. Face aos tempos passado e presente com que abri esta lista, não deixemos de ver neste disco de Mette algo como música para os tempos presente e futuro. Tudo isto é música que deixa espaço para o silêncio, muito espaço, mas que também sabe quando esse espaço é exíguo, como em "Wildheart". 

sábado, 2 de janeiro de 2016

um poema de Charles Bukowski (4)


é tudo música


a rapariga do mercado do peixe está em pé de costas para
mim.
veste um avental castanho e tem cabelo loiro e
comprido.
estou no cais e há peixe por todo o lado.
muito do peixe é grande e quase parece estar
vivo já que os seus
olhos me fitam.

um homem sai de um contentor de gelo segurando um
peixe prateado enorme pela boca aberta enquanto
a rapariga do mercado do peixe se vira e olha para mim.
peço-lhe que me corte um filete de espadarte.

conduzindo de volta à cidade o peixe está no banco
ao meu lado
embrulhado num papel rosado que é só um pouco mais claro
do que a cor do peixe rosado.

conduzo de volta a casa
subindo o caminho e
deixo o carro na garagem.

entro em casa
onde a mulher com quem vivo está a falar
ao telefone.
passa os dias a falar
ao telefone
e é melhor para ambos que ela o faça.

retiro o peixe do papel rosado e ponho-o
com cuidado no frigorífico.
depois subo as escadas onde posso ser eu mesmo
e ouvir a Missa
em Si Menor de
Johann Sebastian Bach



[it's all music]

em:
The Night Torn Mad with Footsteps (2001)

Tradução de Nelson Filipe

sexta-feira, 1 de janeiro de 2016

ano novo


quinta-feira, 31 de dezembro de 2015

selo #012


Este belíssimo selo múltiplo encerrou o meu ano postal, e encerrou-o de uma daquelas formas para além de todos os possíveis agradecimentos. Por essa razão, é uma ótima escolha para selar o ano do compasso bucólico, com um grande obrigado a todos os que passaram e aos que vão passando por aqui.

Com votos de um 2016 cheio de sonhos para todos,
Nelson Filipe

sexta-feira, 27 de novembro de 2015

lira dourada #019


Arvo Pärt (n. 1935)


Spiegel im Spiegel


Benjamin Saunders (órgão)


– –

Para os cerca de dois leitores deste blogue, onde às vezes estou incluído (noutras vezes, nem eu cá apareço), aqui dedico mais um post a Arvo Pärt.

Spiegel im Spiegel [espelho no espelho] é uma das peças mais conhecidas de Pärt. Composta em 1978, foi desde logo arranjada pelo próprio compositor para diversas configurações de instrumentos: violino e piano, violoncelo e piano, contrabaixo e piano, viola de arco e piano, clarinete e piano, trompa e piano, flauta alto e piano, oboé e piano, corne inglês e piano, fagote e piano e órgão solo.

É esta última versão, para órgão, que ouvi pela primeira vez com a chegada deste álbum muito recente e que aqui partilho. Já tinha ouvido uma versão apenas com piano – apócrifa, pois claro –, onde falta dinâmica, e, em suma, onde falta tudo. Felizmente foi retirada do mercado. No órgão, é outra conversa. Está tudo ali e o instrumento parece capaz de albergar todo o universo pärtiano, sendo, por isso, uma pena que, em todo o catálogo de Pärt, só haja quatro peças para órgão solo.

Todas as versões mencionadas foram editadas por Pärt em 1978 (ver aqui catálogo de obras completo) e, em 2011, há uma nova transcrição: para saxofone barítono e piano. Graças ao streaming da Apple Music, vou ouvindo todo este álbum (que é partilhado no canal do YouTube do próprio organista, aqui), e também ouvi uma versão desta transcrição com saxofone. Agora que Mette Henriette entrou no catálogo da ECM, fico com este sonho instantâneo de a ver tocar também este pedaço de Pärt. 

quinta-feira, 26 de novembro de 2015

constelação Arvo


Arvo Pärt fez 80 anos há dois meses e meio. Já tenho aqui feito referência a algumas edições que têm vindo a sair em 2015 e são inteiramente dedicados às obras deste compositor estónio. A editora que com mais excelência tem vindo a gravar a obra de Pärt é a ECM, que editou uma seleção de gravações anteriores (e uma inédita, pelo Hilliard Ensemble) à qual dediquei este post. Mas há mais, e para todos os gostos:

1) Magnificient Magnificat. Marc Michael de Smet; Aquarius. JADE

Mais um fôlego às obras corais de Pärt. É de referir que este coro já gravou anteriormente o majestoso Kanon Pokajanon, a mais extensa obra de Pärt.

2) Passacaglia. Kristjan Järvi; Anne Akiko Meyers; MDR Leipzig Radio Symphony Prchestra & Chorus. Naïve

aqui dediquei longas palavras à obra que dá o título a este álbum, e esta é mais uma gravação que vale a pena. A minha curiosidade perante este álbum voltou-se, porém, para os 13 minutos iniciais com o ímpar Credo para Piano, Coro e Orquestra. Boa gravação por Kristjan Järvi, filho de Neeme Järvi, que já dirigiu muito Pärt, este Credo incluído. Mas o Credo de referência é o de Hélène Grimaud, num álbum (com esse nome) que justificaria por sim uma semana de posts.

3) Organ Music. Daniel Justin; Thomas Leech; Leeds Cathedral Choir; Benjamin Saunders. Choral Music. Brilliant Classics

Tem as quatro obras para órgão solo e outras corais que usam órgão, como uma das versões da Berliner Messe. O álbum termina com a interessante transcrição de Spiegel im Spiegel para este instrumento.

4) Lapsepõlve lood . Songs from Childhood. Children’s Music Studio of Estonian Radio; Kadri Hunt. Arvo Pärt Centre

Uma seleção de canções infantis e peças para piano que Pärt compôs entre 1956 e 1970. Algumas obras aparecem aqui pela primeira vez.

Destes quatro álbuns, só não tive acesso ao 4). Nenhum dos outros está repleto de novidades, mas também nenhum é de descartar. Mas os dois Grandes lançamentos de 2015, no que a Arvo Pärt diz respeito e, talvez(*), entre todos os outros, são:

5) The Lost Paradise . accentus music

Documentário de Günter Atteln, filmado durante um ano. Além da Estónia, foi também filmado em Itália, na Alemanha e no Japão.

6) Adam's Passion . accentus music

A estreia mundial de Adam's Passion, projeto/performance com música de Pärt (Sequentia; Adam’s Lament; Tabula rasa; Miserere) e componente visual de Robert Wilson, numa antiga fábrica de submarinos soviética.


(*) Aquele "talvez" é um palpite, ainda a precisar de confirmação. Que pode demorar, depende do tempo em que os preço exorbitantes comecem a baixar.