domingo, 17 de janeiro de 2016

da cadeira




No compasso ouve-se agora, por vezes baixinho, o Beethoven de Glenn Gould  – o passeio andou pelo Concerto para Piano n.º 4, a que se seguiram as três últimas sonatas para piano. Pelo meio, como que num intervalo em que se bebe qualquer coisa e se conversa sobre o que ainda se vai ouvir, o bar imaginário passava a transcrição para piano da Quinta Sinfonia.


Mas a semana que se segue pede-me a música de Bach tocada daquela cadeira baixa construída pelo pai de Gould. Talvez se faça ouvir aqui toda a música de Bach disponível em gravações, remasterizada em 2015, pelo menos em streaming. O programa ainda não tem ordem definida, mas sabe-se que tudo terá início com a Suite Inglesa n.º 6.

segunda-feira, 4 de janeiro de 2016

A Próxima Aldeia


A PRÓXIMA ALDEIA


O meu avô costumava dizer: «A vida é espantosamente curta. Neste momento, comprime-se tanto na minha lembrança que, por exemplo, mal consigo perceber como pode um jovem decidir dirigir-se para a próxima aldeia sem temer que — abstraindo já dos acidentes infelizes — o tempo duma vida normal e sem azares não baste nem de longe para tal viagem.»

Franz Kafka
in: Ein Landarzt (1920)

Trad. Manuel Resende

domingo, 3 de janeiro de 2016

listas de 2015

Falhei o mês pródigo para apresentação das listas dos melhores do ano, e é agora, tempo das listas do que há de vir, que penso nisto. Uma lista bem curta, sem livros, sem filmes, só três discos. Foram, de todos os editados em 2015, os que mais tempo me giraram em volta das antenas. 


Mahan Esfahani

Time Present and Time Past
Deutsche Grammophon (Archiv)

O cravista Mahan Esfahani oferece, neste disco, um programa tão imprevisível quanto surpreendente. O título, verso que dá início aos Quatro Quartetos de T.S. Eliot, refere-se à época contemporânea e ao Barroco. Por um lado, temos alguns dos compositores que pegaram no tema "La Folia" – descobri só uns anos depois de ver o Tous Le Matins du Monde que Marin Marais era mais um dos barrocos que explorou o tema. Deste lado há A. Scarlatti, C.P.E. Bach e Geminiani. Pelo meio, há  o transe de Piano Phase for Two Pianos, de Cage, onde Esfahani toca as duas partes em overdub, e o Concerto para Cravo de Górecki, que não conhecia e que passou a fascinar-me. A coroar o disco há uma grande interpretação do primeiro Concerto para Cravo em Ré menor, de Bach.



The Tallis Scholars

Tintinnabuli
Gimmel


Arvo Pärt vai sendo presença constante no compasso. No ano em que fez 80 anos, de todos os discos exclusivamente dedicados à sua obra, este pareceu-me o melhor. Os Tallis Scholars, que são especialistas em repertório renascentista, oferecem-nos aqui uma lição de consistência e de unidade com interpretações, todas elas, de excelência. O alinhamento não traz nada de novo – para cada peça há já uma série de gravações disponíveis – mas tudo soa a refrescante, mesmo sem ser  assim tão diferente das melhores gravações da obra de Pärt (quase sempre por Tõnu Kaljuste ou Paul Hillier).



Mette Henriette
Mette Henriette
ECM 

O álbum (duplo) de estreia desta saxofonista norueguesa teve, e continua a ter, uma presença constante por estes lados desde a data de lançamento. O primeiro disco tem música para trio (com violoncelo e piano) e o segundo para uma sinfonietta com treze instrumentistas. O primeiro é mais pausado, mais intimista; o segundo é mais experimental. Face aos tempos passado e presente com que abri esta lista, não deixemos de ver neste disco de Mette algo como música para os tempos presente e futuro. Tudo isto é música que deixa espaço para o silêncio, muito espaço, mas que também sabe quando esse espaço é exíguo, como em "Wildheart". 

sábado, 2 de janeiro de 2016

um poema de Charles Bukowski (4)


é tudo música


a rapariga do mercado do peixe está em pé de costas para
mim.
veste um avental castanho e tem cabelo loiro e
comprido.
estou no cais e há peixe por todo o lado.
muito do peixe é grande e quase parece estar
vivo já que os seus
olhos me fitam.

um homem sai de um contentor de gelo segurando um
peixe prateado enorme pela boca aberta enquanto
a rapariga do mercado do peixe se vira e olha para mim.
peço-lhe que me corte um filete de espadarte.

conduzindo de volta à cidade o peixe está no banco
ao meu lado
embrulhado num papel rosado que é só um pouco mais claro
do que a cor do peixe rosado.

conduzo de volta a casa
subindo o caminho e
deixo o carro na garagem.

entro em casa
onde a mulher com quem vivo está a falar
ao telefone.
passa os dias a falar
ao telefone
e é melhor para ambos que ela o faça.

retiro o peixe do papel rosado e ponho-o
com cuidado no frigorífico.
depois subo as escadas onde posso ser eu mesmo
e ouvir a Missa
em Si Menor de
Johann Sebastian Bach



[it's all music]

em:
The Night Torn Mad with Footsteps (2001)

Tradução de Nelson Filipe

sexta-feira, 1 de janeiro de 2016

ano novo


quinta-feira, 31 de dezembro de 2015

selo #012


Este belíssimo selo múltiplo encerrou o meu ano postal, e encerrou-o de uma daquelas formas para além de todos os possíveis agradecimentos. Por essa razão, é uma ótima escolha para selar o ano do compasso bucólico, com um grande obrigado a todos os que passaram e aos que vão passando por aqui.

Com votos de um 2016 cheio de sonhos para todos,
Nelson Filipe

sexta-feira, 27 de novembro de 2015

lira dourada #019


Arvo Pärt (n. 1935)


Spiegel im Spiegel


Benjamin Saunders (órgão)


– –

Para os cerca de dois leitores deste blogue, onde às vezes estou incluído (noutras vezes, nem eu cá apareço), aqui dedico mais um post a Arvo Pärt.

Spiegel im Spiegel [espelho no espelho] é uma das peças mais conhecidas de Pärt. Composta em 1978, foi desde logo arranjada pelo próprio compositor para diversas configurações de instrumentos: violino e piano, violoncelo e piano, contrabaixo e piano, viola de arco e piano, clarinete e piano, trompa e piano, flauta alto e piano, oboé e piano, corne inglês e piano, fagote e piano e órgão solo.

É esta última versão, para órgão, que ouvi pela primeira vez com a chegada deste álbum muito recente e que aqui partilho. Já tinha ouvido uma versão apenas com piano – apócrifa, pois claro –, onde falta dinâmica, e, em suma, onde falta tudo. Felizmente foi retirada do mercado. No órgão, é outra conversa. Está tudo ali e o instrumento parece capaz de albergar todo o universo pärtiano, sendo, por isso, uma pena que, em todo o catálogo de Pärt, só haja quatro peças para órgão solo.

Todas as versões mencionadas foram editadas por Pärt em 1978 (ver aqui catálogo de obras completo) e, em 2011, há uma nova transcrição: para saxofone barítono e piano. Graças ao streaming da Apple Music, vou ouvindo todo este álbum (que é partilhado no canal do YouTube do próprio organista, aqui), e também ouvi uma versão desta transcrição com saxofone. Agora que Mette Henriette entrou no catálogo da ECM, fico com este sonho instantâneo de a ver tocar também este pedaço de Pärt. 

quinta-feira, 26 de novembro de 2015

constelação Arvo


Arvo Pärt fez 80 anos há dois meses e meio. Já tenho aqui feito referência a algumas edições que têm vindo a sair em 2015 e são inteiramente dedicados às obras deste compositor estónio. A editora que com mais excelência tem vindo a gravar a obra de Pärt é a ECM, que editou uma seleção de gravações anteriores (e uma inédita, pelo Hilliard Ensemble) à qual dediquei este post. Mas há mais, e para todos os gostos:

1) Magnificient Magnificat. Marc Michael de Smet; Aquarius. JADE

Mais um fôlego às obras corais de Pärt. É de referir que este coro já gravou anteriormente o majestoso Kanon Pokajanon, a mais extensa obra de Pärt.

2) Passacaglia. Kristjan Järvi; Anne Akiko Meyers; MDR Leipzig Radio Symphony Prchestra & Chorus. Naïve

aqui dediquei longas palavras à obra que dá o título a este álbum, e esta é mais uma gravação que vale a pena. A minha curiosidade perante este álbum voltou-se, porém, para os 13 minutos iniciais com o ímpar Credo para Piano, Coro e Orquestra. Boa gravação por Kristjan Järvi, filho de Neeme Järvi, que já dirigiu muito Pärt, este Credo incluído. Mas o Credo de referência é o de Hélène Grimaud, num álbum (com esse nome) que justificaria por sim uma semana de posts.

3) Organ Music. Daniel Justin; Thomas Leech; Leeds Cathedral Choir; Benjamin Saunders. Choral Music. Brilliant Classics

Tem as quatro obras para órgão solo e outras corais que usam órgão, como uma das versões da Berliner Messe. O álbum termina com a interessante transcrição de Spiegel im Spiegel para este instrumento.

4) Lapsepõlve lood . Songs from Childhood. Children’s Music Studio of Estonian Radio; Kadri Hunt. Arvo Pärt Centre

Uma seleção de canções infantis e peças para piano que Pärt compôs entre 1956 e 1970. Algumas obras aparecem aqui pela primeira vez.

Destes quatro álbuns, só não tive acesso ao 4). Nenhum dos outros está repleto de novidades, mas também nenhum é de descartar. Mas os dois Grandes lançamentos de 2015, no que a Arvo Pärt diz respeito e, talvez(*), entre todos os outros, são:

5) The Lost Paradise . accentus music

Documentário de Günter Atteln, filmado durante um ano. Além da Estónia, foi também filmado em Itália, na Alemanha e no Japão.

6) Adam's Passion . accentus music

A estreia mundial de Adam's Passion, projeto/performance com música de Pärt (Sequentia; Adam’s Lament; Tabula rasa; Miserere) e componente visual de Robert Wilson, numa antiga fábrica de submarinos soviética.


(*) Aquele "talvez" é um palpite, ainda a precisar de confirmação. Que pode demorar, depende do tempo em que os preço exorbitantes comecem a baixar.




sábado, 7 de novembro de 2015

imagem


sexta-feira, 6 de novembro de 2015

música corrente

Aderi, em junho passado, ao Apple Music, um dos serviços de música por streaming que anda por aí. Usufruí dos três meses gratuitos e decidi continuar a subscrição paga, de 6.99 euros por mês, depois de uma pequena reflexão, à qual talvez nem sequer tenha dedicado tempo exclusivo.

A adesão a tal serviço não me altera minimamente o entusiasmo pelas formas materiais e palpáveis de cultura: sejam discos, sejam livros, seja qualquer outra coisa que ocupe espaço – espaço, que é coisa cada vez mais difícil de encontrar e de preservar. Então, para além da economia de espaço e da economia monetária – pelo preço de um CD por mês ouvir-se-iam catálogos inteiros, houvesse tempo para isso –, há duas grandes razões:

1) A primeira tem que ver com as novidades. No separador das novidades, ali encontramos o que tem saído mais recentemente. Agora, que toda a indústria musical tem a sexta-feira como dia de novos lançamentos, é uma alegria entrar pela 1h da manhã de sexta-feira (ou mais tarde, ao longo do dia), nessa secção e ver o que há de novo. Hoje, por exemplo, na secção de música clássica, há 3 lançamentos da BR-Klassik com o maestro Mariss Jansons – dois com sinfonias de Beethoven (1, 2  e 9), e outro com a Petrushka, de Stravinsky, e os Quadros…, de Mussorgsky. Também desta editora, uma nova leitura ao vivo do Messias de Händel, por Peter Dijkstra. E pela SDG, a nova gravação da Missa em Si menor de Bach, por Gardiner. Não é pouco, mas há muito mais. E há quase todo o catálogo da Deutsche Grammophon e da Harmonia Mundi, entre outros.

2) A segunda tem que ver com a descoberta. Nomes meio obscuros. Coisas pouco conhecidas ou desconhecidas (para quem não as conhece, claro está). Explorar a secção da música alternativa, mais esta e aquela. Ou escrever “Trivium Arvo” na barra de pesquisa e ver quantas versões aqui existem da peça “Trivium”, para orgão, de Arvo Pärt.

No entanto, esta escolha, que me deixa imensamente agradado, não beneficia de qualquer exclusividade nos meus atos de ouvir música. Em primeiro lugar, há editoras que aqui não aparecem (como a ECM). Não dispenso de música nas caminhadas (ou noutras circunstâncias) com absoluta autoproibição de acesso à internet. E gosto de desfolhar os livrinhos que vêm com os CDs – os quais, por vezes, demoramos mais tempo a tirar do encaixe do que a ler o conteúdo neles escrito.

quinta-feira, 5 de novembro de 2015

lira dourada #018


Franz Schubert (1797-1828)


Ungarische Melodie in h-moll, D. 817


András Schiff (piano)


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Este é um álbum para quem quiser um bom serão de outono com Schubert. Qualquer outra hora também serve, mas ouvi-lo sem ponta de sensibilidade melancólica noturna não é o mesmo. Por entre os fantásticos lançamentos da ECM em 2015 está este disco duplo, onde András Schiff interpreta Schubert no seu pianoforte construído em 1820. Não é preciso parafrasear mais, cite-se o próprio Schiff:

My fortepiano was built by Franz Brodmann in Vienna in 1820. It is to me ideally suited to Schubert’s keyboard works. There is something quintessentially Viennese in its timbre, its tender mellowness, its melancholic cantabilità ... It is in the quiet and quietest moments when Schubert – like nobody else – touches our hearts.
Com duas sonatas de Schubert (D. 894 e D. 960), os "Moments musicaux" e um conjunto de "Impromptus" (D. 935), o programa inicia-se com a Melodia Húngara que se pode ouvir acima. Não nesta versão – a do YouTube tem 4 anos e foi tocada nos Proms –, mas basta ir a este site (clicar aqui), para ouvi-la automaticamente neste pianoforte. Adicionalmente, também é de lembrar que este pedaço de leve melancolia húngara é oferecido por Sir András Schiff, que nasceu em Budapeste.

quarta-feira, 4 de novembro de 2015

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terça-feira, 3 de novembro de 2015

um poema de Nelly Sachs (14)



DIANTE DOS MUROS das palavras — silêncio —
atrás dos muros das palavras — silêncio —
revelações da melancolia crescem pela pele
olhos seguem pela água glacial do sofrimento
Na escuridão as mãos tacteiam
a alva meditação da inexistência
Lá fora
a dança irrompe no espaço divino do amor
a estrela recebe a ferida da vida —



[VOR DEN WÄNDEN der Worte — Schweigen —]

em:
Werke. Band 2: Gedichte 1951-1970 (2010)

Tradução de Nelson Filipe